quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Escolha (16) Encontros pelas trevas



Capítulo 16

Raquel colocou Davi na garupa de sua lambreta, enquanto Thaís e Tiago iam na lambreta deles. A cena chegava a ser cômica, os garotos na garupa e as meninas dirigindo. Raquel estava mesmo mudada, havia uma chama diferente em seus olhos, uma vontade de lutar. A noite corria, mas eles não se preocuparam com o escuro ou qualquer outra coisa.

Ao chegarem se surpreenderam com a aparente normalidade do lugar. Não parecia uma base de encontros misteriosos ou operações de uma seita estranha, estava mais para uma pensão pacata e barata para viajantes apressados e sujeitos sem muito senso de higiene e decoração.

- Ei, vocês tem certeza de que é aqui? Esse lugar é comum demais, chega a ser patético! - Replicou Davi.

- É claro que a gente tem certeza! Passamos horas e horas à espreita para tirar as fotos e conseguir as provas que lhes mostramos! Tá achando o que? Vamos em frente!

Tocaram a companhia e uma velhinha atendeu a porta. Como o lugar era uma pensão  fingiram estar interessados em alugar alguns quartos.

- Boa noite senhora, meu nome é Thaís e esses são meu irmão e meus primos.  Sabemos que é um pouco tarde, estudamos aqui perto e nossos pais moram no interior, gostaríamos de saber se poderíamos dar uma olhada em suas acomodações, pois realmente precisamos de um local para ficar.






- Oh, é claro meus jovens, queriam entrar. Estou um pouco ocupada com alguns afazeres no quarto de bagunça atrás da casa, mas podem ficar a vontade! Não se preocupem com o horário, todos já estão recolhidos, mas isso não será um problema. Quando se derem por satisfeitos me procurem e acertamos os detalhes.


Eles mal acreditaram no que ouviram, era a oportunidade perfeita! Ao perderem a senhora de vista se reuniram.


- É o seguinte, Eu e Thaís vamos ficar aqui no primeiro andar. Davi e Raquel vejam se conseguem encontrar algo lá em cima, no segundo piso. Davi, consegue assobiar? - Perguntou Tales.


- É claro!


- Ótimo, esse será o nosso sinal ao encontrar qualquer coisa que achemos digna de compartilhar uns com os outros. 


- Certo, respondeu Raquel, não temos tempo a perder! Não sabemos até quando teremos toda essa privacidade. 






Como furtivos ladrões, ou experientes agentes secretos o grupo de amigos examinou cuidadosamente cada canto, fresta, degrau, rachadura e demais detalhes que pudessem encontrar pelo interior do imóvel. Quarto após quarto eles avançaram, todos abertos, nenhum hóspede. Acharam estranho pois a senhora havia dito que todos já tinham se recolhido. Não importava; acendiam as luzes, procuravam por pistas, nada até que....


Baixo e discreto o suficiente para não levantar suspeitas, mas mais do que claro e significativo para os gêmeos, ouviu-se o assobio de Davi.


Subiram depressa e ao encontrar com o casal perceberam que havia uma porta diferente das outras, no final do corredor sul da casa, e isso os intrigou.


- Alguém aí sabe abrir uma fechadura? Davi perguntou.


- E alguém pergunta para o padre se ele saber rezar uma missa?


Thaís era uma garota esperta! Imediatamente retirou alguns aparatos e bugigangas de sua bolsa e mais rápido do que pudessem esperar a porta do local estava aberta. O que eles não esperavam era o que encontrariam lá dentro. 


Havia um grande cômodo por trás daquela fechadura; um laboratório macabro, sem a menor sombra de dúvidas. Havia todo tipo de partes do corpo de animais que não conseguiam identificar. Uma coleção mais completa daqueles mesmos instrumentos de tortura que utilizaram em Raquel exibia-se, orgulhosa, em uma grande prateleira de metal.


Mas algo os surpreendeu ainda mais do que todo o resto:


Na parede leste do local, havia várias fotos de Raquel; entrando e saindo da faculdade, acompanhada por Davi, no dia em que tentara se suicidar. Não, não era só isso, uma mecha de seus cabelos estava depositada dentro de um círculo de ossos grandes, que pareciam de humanos e velas escuras já derretidas. Havia cinzas de incenso salpicadas, mas o que mais chamou a atenção foram inscrições em sangue num pedaço de pergaminho, que diziam: 






"Morte à Protegida, dor e pesar ao seu encontro".


- Acho melhor fecharmos essa porta, a coisa está feia, não há dúvidas! - Tales observou.


Exatamente após rodar a fechadura, ouviram-se  passos cada vez mais ríspidos e fortes se aproximando do local. Não pareciam ser da velhinha, mas de algum homem truculento e perversamente obstinado.


O sangue de todos gelou! Os passos pararam... a mão do sujeito tentou girar a maçaneta. Como estava trancada por dentro a chave que ele carregava não adiantou. Começou então a esmurrar a porta, parecia que ela viria ao chão a cada solavanco.


- E agora, o que faremos?! Perguntou Raquel.


- Procurar uma saída e rápido! Disse Tales.


- Mas não podemos deixar todas essas evidências aqui, precisamos de provas e estamos no andar de cima! - Thaís, tinha os nervos a flor da pele.


- Não há tempo! disse Davi.


A luz da lua podia ser vista por um pequeno basculante no lado oposto do cômodo ao ritual.
Haveria tempo para uma fuga?



Escrito por:  Marco Túlio Machado



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